Home Data de criação : 07/09/04 Última atualização : 11/10/18 07:40 / 51 Artigos publicados

Dispersos I  (Minutos de Silêncio e Outras Fantasias) escrito em segunda 05 outubro 2009 12:59

Com um badoque de baraúna

atirei três pedaços do meu coração

(que recolhi, dispersos no chão)

em direção às suas pupilas escuras.

 

Viu o sangue de meu estigma?

É por te amar, meu beija-flor!

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Ígneo  (Minutos de Silêncio e Outras Fantasias) escrito em sábado 26 setembro 2009 12:35

Os teus versos, eu os dissolvi

No melhor Cabernet Sauvignon.

Arderam em meus lábios, famintos,

Teus versos, o fogo dos teus versos.


Das folhas de teu livro, couro de centauro,

Fiz meu leito sob a lua crescente.

Cobri-me com elas seis dias e seis noites;

No sétimo dia, acordei repleta de ti.


De tua lembrança, fiz um esconderijo

Que adornei com teus mais belos verbos,

E de teus cílios fiz cortina de sonhos

Para enfeitar as noites de minha janela.


Ainda restaram teus toques, raros toques

Ofertados a mim na azáfama dos dias,

Que deslizavam por sombras e tecidos

No afã de serem apenas sugestões...


... mas tão quentes, tão reais e desejosos

que me faltam metáforas.

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Sentado  (Minutos de Silêncio e Outras Fantasias) escrito em quinta 11 junho 2009 19:09

Ela passava, simples. E só o fato de passar já me enchia os olhos e a boca. Um pé, depois o outro; seria assim. Mas quando eram os pés dela o mundo inteiro se mexia, crateras se abriam, vendavais solitários se uniam, a maré subia. Os pássaros cantavam mais alto; de tão alta, a cantoria chegava aos céus e voltava em forma de tempestade. Ela começava então a correr.

Ela corria, simples. De tão simples ritmo meu fôlego se extinguia e eu me via morto durante alguns segundos inspirados por algum deus. Os raios desse deus eram os cabelos negros que balançavam molhados pela chuva. Morri uma, duas, três eternas vezes. E morro constantemente quando ela balança os cabelos. Deus, que não chova mais! Já se foram seis vidas.

Abrigou-se num teto que nem era teto, tão esquisito que se formava. Uma casa que não era casa, pois era um nada perto de tal figura resplandecente. Um castelo não a comportaria, não a honraria. Maldita perfeição, porque existe? Deveria não existir, como dizem livros de filosofia e desiludidos em programas de televisão. Existe para meu tormento, apenas.

E eu fumava, do outro lado da rua, derretendo embaixo de uma goteira que eu não percebia. Todos os sentidos se convergiam nela e o frio não existia. Ela tremia, a roupa grudada no corpo, o cabelo negro – maldito cabelo – respingando cantoria de pássaro. Raio de deus molhado de cantoria de pássaro.

O rosto preocupado, enfadado, tristonho, chateado. Ela não gostava da chuva – ninguém que carrega livros gosta. Olho passeando por todos os lados. Nem me vê, tão insignificante sou. Estende a mão. Lá vêm luz e ruído de ônibus; ela indo embora. O ônibus a esconde, e quando sai deixa um teto que não é teto vazio, tão vazio quanto o meu coração embaixo dessa goteira maldita que eu percebi agora. Queimei o dedo no cigarro. Acendo outro. Tudo sem graça até a próxima tempestade no meio-dia.

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Ego Onírico  (Minutos de Silêncio e Outras Fantasias) escrito em quarta 06 maio 2009 19:39

Há um monstro dentro de mim. Vivente dos séculos, milhões de séculos presos em bolhas de universos. Esse monstro é tão antigo quanto os universos. Ele é feito de Universos.

Há um demônio dentro de mim. Não se perde, não se dobra, não se exclui: sabe exatamente o que dominar. Esse demônio tem a arte de dominar. Ele é feito de Domínio.

Há um gênio dentro de mim. No escuro ele é luz, mas sabe quando iluminar; tem sabedoria. Esse gênio possui os Livros da Sabedoria. Ele é feito de Sabedoria.

Há uma bacante dentro de mim. Seus cabelos negros dançam aos sábados em louvor a Baco. Essa bacante aprendeu os prazeres e segredos de Baco. Ele é feita por Baco.

E dentro de mim se desenrolam as magias dos eternos: suas bênçãos, suas maldições, seus prazeres, suas desgraças. Tenho em mim todas as glórias dos mundos, e os mundos me contêm. Sou a ausência das cores e sua permanência. Sou a eternamente cinza.

Eu sou Deus.

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Frio  (Minutos de Silêncio e Outras Fantasias) escrito em domingo 03 maio 2009 00:44

Eu não sei me comportar no frio. Tudo gela, tudo é rígido, tudo é comprimido. O corpo é tenso, a alma é tensa, tudo é cinza. Não se coloca as mãos, não se coloca a língua, não se sabe colocar, pois tudo treme, tudo conflita, tudo se esgota. Muito se cansa, nada se cobre, pois não se cobria quando era quente, não sabe se cobrir.

Eu não sei me comportar no frio. Não há delícias, não há compartimentos, não há conforto (de corpo e de mente - Meu Deus, tanta gente também com tanto frio!). O cabelo não seca, a roupa não seca, tudo se  suja, a lama escorrega e se adere ao corpo, às pernas, às coxas, às unhas coloridas e as torna marrons, cinzas, escuras.

Eu não sei me comportar no frio. As coisas são tristes, não se sai na rua, não se modifica, não há convívio, ou há convívio demais. Tudo é extremo, tudo é grotesco, o toque machuca, o carinho não afaga, os corpos não se esquentam, o indivídio é mais indivíduo, não há volúpia, não há desejo, não há jeito, tudo treme, nada se esgota.

Eu não sei me comportar no frio. O frio castiga, o frio ri de todos, a todos importuna, a todos cutuca, a cada momento, a cada minuto lembra que aqui está, que existe tão forte, que vai demorar ir-se, não vai evadir-se, e vai rir-se, e rir-se e rir-se. Aumenta-se tudo, tudo sufoca, espalha-se grande, resistente sempre, sempre agonia.

Eu não sei me comportar no frio. Mas o frio sabe comportar-se em mim.

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